Le Boudoir

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Referências

Tony Duquette e a coragem do excesso

05.06.2026

Há referências que nos inquietam porque parecem abrir uma porta que já existia dentro de nós. Tony Duquette pertence-me dessa forma. Não o vejo apenas como um designer maximalista, nem como uma figura excêntrica da história da decoração americana. Vejo-o como alguém que me autorizou a olhar para o excesso sem culpa, a compreender que a abundância pode ser sofisticada e que o brilho pode ser inteligente.

O seu universo é feito de camadas, objectos improváveis, jardins quase teatrais, dourados, verdes intensos, conchas, lanternas, tecidos, reflexos, animais, ruínas e memórias orientais e barrocas. Em qualquer outro criador, esta combinação poderia facilmente cair no capricho ou na caricatura. Em Duquette, há cultura, instinto e uma espécie de febre visual muito rara. O que parece espontâneo é, na verdade, composição e talvez seja isso que mais me fascina nele: a capacidade de transformar a acumulação numa atmosfera.

Durante muito tempo, sobretudo no universo dos casamentos e dos eventos de marca, fomos empurrados para uma espécie de bom gosto silencioso. Mesas redondas. Flores banais. Paletas óbvias. Tudo muito bonito, mas muitas vezes demasiado obediente. Como se a elegância tivesse de ser sempre neutra, previsível, quase tímida. Eu próprio sinto, cada vez mais, uma resistência a essa ideia. Interessa-me outra coisa: a possibilidade de criar ambientes com densidade, com teatralidade, com um certo risco visual.

É aqui que Tony Duquette se torna uma referência tão contemporânea. Porque o maximalismo que hoje começa a regressar aos eventos não é apenas uma tendência estética. É uma resposta a uma saturação. Depois de anos de imagens minimalistas, espaços brancos e cenografias demasiado limpas, existe uma vontade clara de voltar ao carácter. À cor. À textura. À escala. Ao impacto. Aos ambientes que não pedem licença.

Nos eventos, esta viragem tem um potencial enorme. Um jantar já não precisa de ser apenas um jantar. Pode ser uma mise-en-scène. Uma mesa pode ser uma paisagem. Uma entrada pode funcionar como prólogo. Uma instalação pode construir expectativa antes mesmo de qualquer palavra ser dita.

Duquette compreendeu isso antes de muitos e sabia que um ambiente é sempre uma experiência sensorial e psicológica. Sabia que a luz altera a memória de um lugar, que o brilho, quando bem usado, cria magnetismo e que a mistura de referências pode produzir uma verdade mais forte do que qualquer pureza decorativa.

Nem sempre o impacto nasce do elemento mais caro. Muitas vezes nasce da combinação certa, da escala inesperada e do detalhe repetido. Um evento verdadeiramente memorável não vive apenas da qualidade dos materiais, mas da forma como esses materiais são postos em cena. Por isso, quando penso em Tony Duquette, penso menos numa estética a copiar e mais numa atitude a herdar. A recusa do óbvio. A liberdade de misturar. A coragem de entrar no território do quase excesso e permanecer ali com controlo. O entendimento de que um espaço pode ser culto, exuberante, divertido, misterioso e sofisticado ao mesmo tempo. Esta simultaneidade é rara e talvez seja precisamente por isso que me interessa tanto.

O maximalismo, quando é mal compreendido, pode tornar-se ruído, mas quando é bem construído, torna-se numa bela memória. Não se trata de colocar mais coisas, mas de criar mais camadas de leitura. Uma camada visual, uma camada emocional, uma camada histórica, uma camada táctil, uma camada quase teatral. O erro está em pensar que o maximalismo é ausência de edição. Pelo contrário. O bom maximalismo exige uma edição feroz. Exige saber quando insistir e quando parar. Exige perceber que o excesso só funciona quando tem direcção artística.

É nesta fronteira que encontro hoje uma das possibilidades mais estimulantes para os eventos. Sinto que estamos a entrar num tempo em que os clientes, as marcas e os próprios convidados procuram experiências menos genéricas. Querem entrar em lugares que pareçam pensados para aquele momento e não repetidos de uma pasta de referências.

Retiro dele, para o meu próprio olhar, a ideia de que a decoração pode ser mais do que ornamentação. Pode ser pensamento visual. Pode ser provocação subtil. Pode ser uma forma de hospitalidade. Pode ser uma maneira de dizer ao convidado: este momento foi imaginado até ao limite.

No fundo, Tony Duquette fascina-me porque me lembra que a beleza não tem de ser prudente. Pode ser generosa, densa, impura, teatral, cheia de referências e ainda assim elegante. Não fazer apenas cenários fotogénicos, mas ambientes com alma. Não decorar para impressionar durante segundos, mas construir imagens que permaneçam por uma vida inteira, na memória de quem as imaginou, de quem as construiu e de quem as viveu. Porque um evento verdadeiramente marcante não pertence apenas à data em que acontece. Passa a fazer parte da vida de quem lá esteve, como uma espécie de lembrança luminosa que regressa sempre que se fala daquele dia.

Talvez seja isso que procuro cada vez mais: eventos que não sejam apenas bonitos, mas lugares temporários com força suficiente para permanecer dentro de quem os atravessa.