No contexto do The Planners’ Retreat, realizado no The Lince Santa Clara, em Vila do Conde, desafiei-me a decorar o pequeno-almoço: um momento de pausa, mas também de escuta, conversa e construção colectiva entre profissionais da indústria.
Organizado pela Isabel, da Crachá, o retreat reúne wedding planners e especialistas do sector para pensar Portugal com maior ambição, não apenas enquanto destino, mas enquanto território capaz de produzir linguagem, cultura de serviço e excelência. A Isabel tem vindo a construir um papel importante nessa aproximação entre todos. Há aqui uma liderança discreta, mas necessária, que tem ajudado a criar relação e partilha. Ainda falta caminho, claro. Mas o caminho faz-se precisamente assim, juntando pessoas, abrindo conversa e criando contextos onde a exigência deixa de ser individual para passar a ser colectiva.
Para este pequeno-almoço, interessava-me fugir da ideia imediata de uma mesa bonita. Queria criar uma atmosfera que tivesse densidade. A escala era íntima. Reuni estes elementos para transformar a manhã num cenário de atenção: luz baixa, textura e verticalidade.
Em Vila do Conde, a renda tem um peso cultural muito particular. As rendas de bilros fazem parte da identidade da cidade há vários séculos, com referências históricas associadas ao trabalho das rendilheiras desde, pelo menos, o início do século XVII. É uma tradição ligada à mão, ao tempo, à paciência e a uma inteligência material que atravessa gerações. Por isso, trabalhar rendas brocadas naquele contexto não era um gesto inocente. Também não quis fazer uma citação literal ou folclórica das rendas de Vila do Conde. Interessava-me antes absorver essa ideia de superfície trabalhada.

A renda cobriu a mesa, envolveu volumes e criou transparências. Havia ali uma vontade de aproximar o gesto manual da construção espacial, como se a mesa pudesse ser lida em camadas: primeiro a luz, depois a textura, depois o volume, depois o lugar.



Foi nesse ponto que as caixas se tornaram fundamentais. Optei por desenhar vários tamanhos, quadradas, rectangulares e em formato de torre, porque me interessava construir uma espécie de “tetris” visual sobre a mesa. Não queria centros de mesa isolados nem composições florais previsíveis. Queria uma construção modular, quase arquitectónica, onde cada peça tivesse peso. As caixas forradas permitiram criar diferentes alturas, aproximando o conjunto de uma pequena instalação mais do que de uma decoração convencional. Alguns recebiam vegetação mais compacta, outros flores brancas, outros ficavam mais depurados. A repetição dos módulos, a alternância entre comprimentos e alturas, e a forma como se alinhavam ao longo da mesa criavam uma leitura contínua, quase cenográfica. Era uma mesa longa, mas não monótona. Tinha cadência.


A paleta manteve-se contida: branco e amarelo manteiga, verdes suaves e a presença gráfica do preto nas cadeiras. A toalha em amarelo manteiga nasceu de uma inspiração recente que me ficou da Marta, da Tales, depois de ver um moodboard dela que me chamou à atenção. Interessou-me aquela temperatura cromática, entre o creme e o amarelo, porque acrescentava calor sem tornar o conjunto evidente. Era uma cor baixa, luminosa, quase matinal. Não queria branco absoluto. Queria uma luz pousada sobre a mesa.


Os guardanapos foram mandados fazer no dia anterior, em linho leve. Esse detalhe interessava-me muito, porque havia uma diferença subtil entre a densidade da renda e a leveza do linho.
As velas foram outro ponto decisivo. A minha ideia inicial era trabalhar com velas de dois metros de altura, criando uma verticalidade quase impossível, muito escultórica. Durante a preparação do set, percebi que essa escala, apesar de visualmente forte, não funcionava tecnicamente: as velas começaram a vergar. Tive então de tomar uma decisão em tempo real e cortá-las para cerca de um metro e vinte, altura suficiente para manter a tensão vertical sem comprometer a estabilidade.


Também por isso mandei fazer castiçais em ferro, pesados o suficiente para suportarem o peso e a altura das velas. Esta é uma parte do trabalho que muitas vezes não se vê, mas que define tudo: a beleza só se sustenta quando a construção está resolvida.
A escala final das velas acabou por funcionar muito bem. Alongavam a mesa, interrompiam a horizontalidade e criavam uma relação muito bonita com os vãos, a pedra e a arquitectura do The Lince Santa Clara. Havia nelas qualquer coisa de cerimonial, mas sem solenidade pesada. Uma espécie de recolhimento de manhã.
Em vez de uma composição floral exuberante, optei por massas verdes, algumas compactas, outras mais etéreas. As flores brancas apareciam pontualmente, quase como respirações dentro do conjunto. O objectivo não era florir a mesa, mas dar-lhe textura.
Interessava-me também que este ambiente tivesse uma leitura profissional para quem o iria ocupar. Estávamos entre pares, entre pessoas que percebem proporção, produção e detalhe.
A cadeira preta, com o seu desenho gráfico, trouxe uma tensão importante. Cortava a suavidade do branco, da renda e do amarelo manteiga, impedindo que o conjunto se tornasse demasiado doce. Essa presença linear, quase desenhada, aproximava a mesa de uma linguagem mais contemporânea, para que o resultado não ficasse preso a uma leitura puramente romântica.
Achei particularmente bonita a leitura da minha querida Jasmine Lazzari, quando referiu que a mesa lhe lembrava um bridal breakfast, esse momento quase cinematográfico em que a noiva se contempla antes da preparação. Gostei dessa leitura porque ela capta exactamente a ambiguidade que me interessava: uma mesa de manhã, mas com mistério; delicada, mas não ingénua; íntima, mas construída com consciência cénica.

No fundo, este conjunto nasceu desse cruzamento entre lugar, indústria e imaginação. Vila do Conde trouxe a memória da renda. O The Lince Santa Clara trouxe a pedra, a escala e a luz. A Isabel trouxe o contexto de união e pensamento entre profissionais. A decoração procurou ligar tudo isso sem o explicar.
Gostei especialmente de fazer este conjunto porque me obrigou a pensar fora do óbvio. Era apenas um pequeno-almoço, mas podia ser mais do que isso. Uma mesa onde a indústria se senta, conversa, observa e talvez se reconheça com mais exigência.
Uma mesa para começar o dia, sim. Mas também uma mesa para lembrar que a nossa indústria se eleva quando deixamos de decorar apenas espaços.

Fotografias | Branco Prata