Assumir a organização, produção e decoração da celebração dos 18 anos do Forum Coimbra significou trabalhar sobre um território particularmente exigente: um centro comercial de grande escala, onde a experiência da marca tem de coexistir com fluxos contínuos, operação comercial permanente, exigências de segurança, tempos de montagem muito comprimidos e uma relação direta com um público massificado e heterogéneo. Não se tratava, por isso, de criar um objeto decorativo. Tratava-se de desenhar um dispositivo espacial capaz de interromper a rotina, gerar permanência, produzir desejo de aproximação e transformar a praça central num lugar de acontecimento.
Desde o início, o projeto foi pensado a partir de uma questão central: como criar impacto real num contexto saturado de estímulos, sem perder legibilidade, robustez construtiva e eficácia operacional. A resposta passou por desenvolver uma linguagem cenográfica clara, de leitura imediata, fortemente identitária e suficientemente sólida para suportar uso intensivo, contacto constante com o público e uma presença prolongada em ambiente comercial.
A opção por uma estrutura integralmente amarela não foi meramente estética, mas também uma decisão de comunicação espacial. Num centro comercial, onde a atenção está permanentemente fragmentada entre montras, circulação, luz artificial, sinalética e estímulos concorrentes, a cor precisava de funcionar como mecanismo de captura ótica e como elemento de unificação do conjunto. O amarelo permitiu-nos construir um campo visual contínuo, enérgico, celebratório e altamente reconhecível, quase como se a instalação se impusesse ao espaço.
Mas o projeto não se esgotou nessa clareza cromática. O que me interessava era produzir tensão entre controlo e exuberância. Por isso, à geometria rigorosa das estruturas contrapôs-se uma camada orgânica e quase exuberante de vegetação e flor, com apontamentos tropicais, massas florais saturadas e uma composição botânica desenhada para contaminar o perímetro construído. Essa decisão foi fundamental. Sem essa camada viva, o conjunto arriscava tornar-se excessivamente gráfico ou demasiado expositivo. Com ela, ganhou espessura, temperatura e uma qualidade mais sensorial, menos estática, mais próxima de uma instalação experiencial do que de um simples cenário promocional.
Do ponto de vista do desenho, interessava-me que cada elemento tivesse função dupla: estruturar o espaço e ativar comportamento. A roda, por exemplo, foi desenhada como núcleo relacional, um ponto de condensação de público, curiosidade e interação.
A piscina de bolas transparentes, por sua vez, foi desenhada como contraponto experiencial. Enquanto a roda trabalha o eixo do jogo e da expectativa, esta zona ativa o corpo, a imagem e a dimensão lúdica, sendo um dispositivo de permanência e produção de conteúdo. Num contexto retail contemporâneo, isso é decisivo. Os projetos mais eficazes são os que compreendem que o espaço hoje não é apenas vivido, é também fotografado, filmado, partilhado e amplificado digitalmente. A instalação precisava, portanto, de performar tanto fisicamente como em imagem.
Do ponto de vista construtivo, houve uma preocupação muito consciente com estabilidade e resistência. Parte importante do projeto passou pelo desenvolvimento de estruturas em ferro, precisamente para garantir maior solidez, segurança e controlo formal. Essa opção foi determinante. Em muitos projetos temporários, o erro está em tratar a cenografia como algo leve no mau sentido da palavra, isto é, visualmente apelativo, mas estruturalmente frágil. Aqui, a minha preocupação foi inversa: construir com inteligência de produção, assegurando que a leveza visual resultasse de uma base técnica robusta. O ferro permitiu-nos controlar melhor os vãos, garantir resistência ao uso intensivo e criar uma base fiável para a integração dos revestimentos, da mecânica e da componente decorativa.
Essa robustez era ainda mais importante porque estávamos a operar num espaço aberto, com fruição constante do público, o que significa contacto próximo, pressão visual permanente e necessidade de manutenção de integridade formal ao longo de toda a ativação. A cenografia tinha de parecer limpa e espontânea, mas por detrás disso existia um raciocínio rigoroso de produção: sistemas de fixação, distribuição de cargas, proteção de arestas, resistência ao toque, estabilidade dos elementos verticais e controlo da relação entre peso visual e peso real.
Também a escala foi muito estudada. Num centro comercial, um projeto perde-se facilmente se não tiver massa crítica suficiente, mas torna-se invasivo se bloquear leitura, circulação ou permeabilidade visual. O equilíbrio estava em desenhar volumes com presença, sem criar um obstáculo cego. Por isso, trabalhei muito a ideia de estrutura aberta, de cheios e vazios, de caixas que definem limite mas deixam respirar o espaço. Isso permite que a instalação seja vista à distância, percebida em fragmentos, descoberta por aproximação e lida a partir de diferentes ângulos..
Enquanto responsável pela organização, produção e decoração, o meu papel não foi apenas conceber uma imagem apelativa. Foi transformar uma visão em sistema executável. Isso implicou articular conceito, desenho, estabilidade, materiais, relação com fornecedores, montagem em contexto real, adequação ao cliente e leitura estratégica da experiência do visitante. É precisamente aqui que, a meu ver, o projeto ganha espessura. Porque não resulta apenas de gosto ou sensibilidade visual. Resulta de decisão. De escolha. De saber onde insistir, onde simplificar, onde reforçar e onde deixar respirar.
No fundo, o que mais me interessou foi provar que, mesmo num contexto altamente comercial, é possível trabalhar com pensamento de autor sem perder eficácia. É possível desenhar para o público alargado sem cair no óbvio. É possível construir um dispositivo popular, vibrante e acessível sem abdicar de rigor formal, inteligência construtiva e intenção estética. E é isso que este projeto representa para mim: um exercício de mediação entre espetáculo e controlo, entre exuberância e disciplina, entre marca e experiência.